a noite flutuava-lhe nas veias
como uma estrada nas sombras
uma viagem sem fim previsto
mas sempre com a alucinação
da sua presença.
ao cruzar as planícies douradas proibidas
encontrei sinais da passagem de povos antigos
talvez perdidos
vi correrem os fantasmas de crianças
que viveram muito antes de sabermos
nomear os astros
as plantas
e os processos internos
da fronteira interior.
não lhes sei dar nomes
ou atribuir raças
nem sequer as caras lhes desvendei.
prossegui o meu caminho
ouvindo baixinho, sempre atrás de mim,
o ciciar sossegado das crianças,
mas olhando sempre em frente
para um pôr-do-sol terno
no ocaso do mundo.
da travessia de territórios gelados e pulsantes
sobejaram-lhe os olhos ígneos de uma criança
neles criaturas imensas lutam pela sobrevivência
corpos estendidos por universos subitamente
transformados no âmbar das lágrimas
e perante este panorama
perdem-se as horas
perdem-se as mãos
e o sossego etéreo é travado por um gigante invisível
um frio repentino enclausura-o como num
casulo terrível
incubação precoce para o seu fim
o mundo é uma respiração breve no fôlego da existência. perde-se numa asma cósmica prolongada, sabendo que para onde vai não há salvação da solidão em que se encarcera.
pede perdão a um deus antigo, mas lentamente se apercebe de que é na sua criação que deve encontrar a redenção.
sofre para evoluir, tal como um cigarro que é transformado em fumo. quer desaparecer, apenas. no entanto, sente-se crescer tão vagarosamente como o carvalho que se ergue junto à igreja, e cujos ramos osculam timidamente os sinos.
I.
é por isso que volta sempre a este lugar. desvaneceu-se-lhe das veias a rotina, mas permaneceu na alma o hábito. há várias maneiras de ser monge (penso que nenhuma inclui o celibato voluntário ou qualquer outro tipode violência/violação).
há constelações nas respostas.
II.
sinto como que um peso que me prende os movimentos. a cada dia este cárcere invisível torna-se mais e mais real. nasceu dentro de mim, não sabe onde ir morrer.
noites
passadas
em Paris
como fantasmas
que ludibriam a memória
e todos os átomos
que compõem a nossa tristeza.
já não há nada a fazer quanto a mim.
ninguém saberá desvendar o sentido
que encontro no espaço das palavras
o mundo move-se lentamente
como um emaranhado de sons
que se perde no nevoeiro.
procedo do mesmo modo que caminhei sempre
em direcção a uma cruz.
nela vejo o fogo de um infinito
sempre fugitivo
como um inverno que nunca vem.
quando a pele começa a arrefecer
augura-se já a estação última,
mas de repente surge a bruma
dos novos horizontes
e de novo sou de carne
e sinto tudo
deste escasso mundo.